sexta-feira, 26 de junho de 2009

Elis & Tom, 30 anos depois

Virgínia Rodrigues foi um dos maiores – e ao mesmo tempo mais obscuros – fenômenos da música brasileira. Passou a maior parte da sua vida como lavadeira na Bahia, sua terra natal. Quando participou de uma peça de teatro, daquelas direcionadas à população carente, e cantou no último ato, as coisas tomaram outro rumo. Acontece que Caetano Veloso acabou descobrindo-a. Em dois tempos gravaram um disco, de canções sumariamente afro-brasileiras. Em um ano de carreira, tocara no Carnegie Hall, em meia Europa e foi considerada a cantora preferida do Bill Clinton. Não que o cara manje muito de música, mas qualquer pessoa preferida do presidente dos EUA é digna de algum reconhecimento mundial.


Pois é. Menos no Brasil. Longe de fazer a já-manjada crítica ao colonialismo brasileiro – Virgínia tem seu público em terra brasilis: modesto em relação ao resto do mundo, mas é assim com a maioria dos músicos de prestígio no país.


Tudo isso pra chegar em Recomeço, seu último disco. Eu não sou o maior fã do repertório de exaltação a Ogum que a consagrou; e esse último disco, embora conceitualmente mais pobre que seus predecessores – todos com certo chauvinismo afro-brasileiro – por ser um apanhado de standards da música brasileira, acabou saindo mais bonito.



Um disco de standards é uma fórmula batida, que no entanto ainda é muito usada pelos intérpretes nova-Velha Guarda, que, apesar de tecnicamente impecáveis – aqui incluem-se Mônica Salmaso, Teresa Cristina, Ná Ozzetti e a própria Virgínia –, cantam as gemas da música brasileira com saudosismo de quem não acredita numa revitalização da música brasileira – o que de fato está ocorrendo, mesmo que, digamos, mais pop e cosmopolita do que compositores pré-Beatles, pré-globalização: seja Ary, Caymmi, Noel, Lupicínio...


Virgínia seleciona um cancioneiro perolado para a feitura de seu disco: composições de Francis Hime, Chico Buarque, Edu Lobo e A.C. Jobim, com a produção e arranjos competentes de Cristóvão Bastos, que assina com Chico a faixa de abertura, Todo o Sentimento.


No entanto, atentem-se à penúltima canção do disco: Porto de Araújo, uma parceria de Guinga com Paulo César Pinheiro. É o motivo do post inteiro. É o momento em que a cantora mais competente do país encontra o compositor mais genial em atividade. Eu não escuto nada parecido desde Elis & Tom. É sublime. Merece pôr no repeat.


Nenhum comentário:

Postar um comentário