quinta-feira, 27 de agosto de 2009

Música microeconômica

Já falaram bastante de terceirização de música, mas nunca colocaram em números. Imagine, digamos, uma cantora de axé. Dummy: Ivete Sangalo.

Exemplificarei minha tese com um hit: Abalou, abalou / Sacudiu, balançou / Coração é felicidade. O último verso fica por conta da muvuca. Não consideramos no modelo o refrão – normalmente cantado pelo público – e as frases incidentais ao longo do show.

Supomos também que, coeteris paribus, as canções tem três estrofes. Podemos deduzir que, a cada canção de três estrofes, a intérprete deixa de cantar uma. Digamos que o setlist seja de 20 músicas. Ivetinha, portanto, daria o migué em deixar o povão cantar 6,6666666... músicas. Arredondemos, pois, para apenas seis; a dízima fica para mensagens & dizeres residuais durante o concerto – “Sai do chão” / “Comigo” / “Na palma da mão” e “Alôôô [cidade onde estou fazendo o show]”.

Moral da história: você paga 200 mangos pra se espremer – algumas vezes somente pela nobre causa da conjunção libido-carnal – entre um milhão de fãs histéricas, disfuncionais e alguns heróis empenhados no santo ofício (as únicas pessoas que estariam dispostas a situações tão insalubres) num campo de futebol, mal conseguindo escutar o que a moça de collant de couro tá gritando em cima de uma moto com dois Jesus Luzes (plural de Jesus, alguém?), e ainda canta 30% do que ela deveria cantar? Prefiro o Vila Country.