
Daqui.
Aqui é cúmplice o que é simples e absurdo: Esmeralda no veludo, onça negra com jibóia
O cara tem uns 25 anos de idade e já tem 10 de carreira. Foi da banda do Chico César, assinou canções com Arnaldo Antunes, Zé Miguel Wisnik e Luiz Tatit, fez o hit da novela que a Vanessa da Mata canta, toca acordeom e violão e tem uma sensibilidade melódica muito grande. Já saiu na Ilustrada, no blog do Evangelista, e o MySpace dele é sensacional. Longe consegue fugir da prosaica introdução e virar um acalanto modulante, desses que é difícil ver em composições assim.
Ele colocou duas demos novas, lindas, no MySpace. Felicidade tem clima, e esse é o maior mérito de uma composição: evocar um estado, um transe, uma catarse que dure pelo menos a canção. E a Laura ajuda nas vozes lindas e no cello.
De Wayfarer, camiseta Kiss Roberto, Vans quadriculado, Marcelo sintetiza um lirismo pessoal com a fina-flor da música brasileira e uma estética pop sofisticada.
Melhor que aqueles bottons de banda ou aqueles de fotos manjadas da internet, tipo raio-x da cabeça do Homer, manja? Vale lembrar que isso é ainda da época que ele tinha relações com o regime militar...
Tirei do É tudo política.
circum-lóquio
(pur troppo non allegro)
sobre o neoliberalismo
terceiro-mundista
5.
o neoliberal
sonha um mundo higiênico:
um ecúmeno de ecônomos
de economistas e atuários
de jogadores na bolsa
de gerentes
de supermercado
de capitães de indústria
e latifundários de
banqueiros
- banquiplenos ou
banquirrotos
(que importa?
dede que circule
autoregulante
o necessário
plusvalioso
numerário)
um mundo executivo
de mega-empresários
duros e puros
mós sem dó
mais atento ao lucro
que ao salário
solitários (no câncer)
antes que solidários:
um mundo onde deus
não jogue dados
e onde tudo dure para sempre
e sempremente nada mude
um confortável
estável
confiável
mundo contábil.
Vou começar pelo 5., o que eu mais gosto. Toda vez que eu leio o circum-lóquio, do Haroldo de Campos, eu fico pensando nesse muito contábil em que eu vivo hoje. De qualquer forma, bom pra caramba.

Alguém que compreende. Lembro de ter visto uma mesa redonda no SESCTV com o Júlio Medaglia, o mediador do SESC e um jornalista cultural – se não me falha a memória, o Tárik de Souza. Eles falavam dessa nova forma de consumir música: como se fossem esteróides; foninhos brancos 24/7, nonstop.
Pessoa, como Bernardo Soares, no Livro do Desassossego.
Identifiquei-me um certo bocado com a “depressão calma e suave” que moveu Pessoa pelas páginas de seu livro-mosaico. “Depressão”, vá lá, é uma expressão forte; esse primeiro semestre quebrou alguns eixos em que eu jazia, o que me criou um certo descontentamento, uma petit tristesse, um hiato em que eu contrabalanceio todos os ganhos e perdas no (ou na?) Razão. Mas é uma tristeza boa. Introspectiva, inquietamente calma. Contemplativa....Todos os detalhes se me gravam desproporcionalmente a haver um todo. Só me ocupa de mim. O mundo exterior é-me sempre evidentemente sensação. Nunca esqueço o que sinto.
Virgínia Rodrigues foi um dos maiores – e ao mesmo tempo mais obscuros – fenômenos da música brasileira. Passou a maior parte da sua vida como lavadeira na Bahia, sua terra natal. Quando participou de uma peça de teatro, daquelas direcionadas à população carente, e cantou no último ato, as coisas tomaram outro rumo. Acontece que Caetano Veloso acabou descobrindo-a. Em dois tempos gravaram um disco, de canções sumariamente afro-brasileiras. Em um ano de carreira, tocara no Carnegie Hall, em meia Europa e foi considerada a cantora preferida do Bill Clinton. Não que o cara manje muito de música, mas qualquer pessoa preferida do presidente dos EUA é digna de algum reconhecimento mundial.
Pois é. Menos no Brasil. Longe de fazer a já-manjada crítica ao colonialismo brasileiro – Virgínia tem seu público em terra brasilis: modesto em relação ao resto do mundo, mas é assim com a maioria dos músicos de prestígio no país.
Tudo isso pra chegar em Recomeço, seu último disco. Eu não sou o maior fã do repertório de exaltação a Ogum que a consagrou; e esse último disco, embora conceitualmente mais pobre que seus predecessores – todos com certo chauvinismo afro-brasileiro – por ser um apanhado de standards da música brasileira, acabou saindo mais bonito.
Um disco de standards é uma fórmula batida, que no entanto ainda é muito usada pelos intérpretes nova-Velha Guarda, que, apesar de tecnicamente impecáveis – aqui incluem-se Mônica Salmaso, Teresa Cristina, Ná Ozzetti e a própria Virgínia –, cantam as gemas da música brasileira com saudosismo de quem não acredita numa revitalização da música brasileira – o que de fato está ocorrendo, mesmo que, digamos, mais pop e cosmopolita do que compositores pré-Beatles, pré-globalização: seja Ary, Caymmi, Noel, Lupicínio...
Virgínia seleciona um cancioneiro perolado para a feitura de seu disco: composições de Francis Hime, Chico Buarque, Edu Lobo e A.C. Jobim, com a produção e arranjos competentes de Cristóvão Bastos, que assina com Chico a faixa de abertura, Todo o Sentimento.
No entanto, atentem-se à penúltima canção do disco: Porto de Araújo, uma parceria de Guinga com Paulo César Pinheiro. É o motivo do post inteiro. É o momento em que a cantora mais competente do país encontra o compositor mais genial em atividade. Eu não escuto nada parecido desde Elis & Tom. É sublime. Merece pôr no repeat.
Gay Talese colou na FLIP. Notícia velha, mas só deu pra pôr agora aqui. Ele publicou o ensaio Frank Sinatra has a cold na revista Esquire em 1966, e adoram-no até hoje. É um dos grandes caras do New Journalism, o jornalismo literário.
Como disse Frank, Jr., Frank Sinatra has a cold é um retrato da Voz supernormal, e não superumana, como todos pensam. É a placa fotográfica do Frank Sinatra que usa a mesma marca de cueca que sua mãe costumava comprar, que cresceu numa vizinhança sul-italiana em New Jersey, e que nunca, nunca perde a compostura, independente de quanto álcool fora consumido, de quão mentalmente ou fisicamente está abalado. O crooner seguia um Bushido.
O ensaio é lindo. Me fez gostar do cara, da pessoa. Eu pessoalmente não sou o maior fã de crooners, mas o cara tem muita coisa boa – eu gostei dos dois discos com o Jobim, e o Moonlight Sinatra. Eu gosto muito dessa coisa de jornalismo literário.
A foto eu tirei do the impossible cool.